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Municípios Rondonienses 03/08/2026 16:13 Redação

Rondônia convive com as passagens aéreas mais caras do país e expõe gargalo histórico da aviação regional

Estado registra a segunda maior tarifa aérea média do Brasil em 2025, lidera o ranking nacional de aumento de preços e enfrenta desafios estruturais que limitam a concorrência e encarecem o transporte aéreo.

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Rondônia convive com as passagens aéreas mais caras do país e expõe gargalo histórico da aviação regional

Rondônia em Questão - Viajar de avião a partir de Rondônia deixou de ser apenas uma necessidade logística para se transformar em um dos maiores obstáculos à mobilidade de quem vive no estado. Em um país onde a aviação deveria encurtar distâncias, os rondonienses convivem com uma realidade oposta: pagam algumas das passagens mais caras do Brasil para manter conexão com os principais centros econômicos nacionais. Os números agora confirmam oficialmente essa distorção. Dados do Anuário do Transporte Aéreo 2025, da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), colocam Rondônia na segunda posição do ranking nacional das tarifas aéreas mais elevadas, atrás apenas de Roraima. Mais preocupante ainda é outro indicador: o estado registrou o maior aumento de preços do país em um único ano, com alta de 40% em relação a 2024, elevando a tarifa média para R$ 1.277.

Mais do que um problema de mercado, o encarecimento das passagens revela um desafio estrutural que combina isolamento geográfico, custos operacionais elevados, baixa concorrência entre companhias aéreas e limitações na infraestrutura aeroportuária. O resultado é um ciclo que penaliza moradores, empresários, estudantes, pacientes em tratamento e todos aqueles que dependem do transporte aéreo para estudar, trabalhar, fazer negócios ou acessar serviços de saúde fora do estado. Em vez de promover integração, a aviação regional acaba impondo um alto custo à própria conectividade da Amazônia com o restante do país.

Distância geográfica e combustível pressionam os custos

O levantamento da Anac mostra que Rondônia possui a maior distância média de voo do Brasil, com 2.906 quilômetros por trecho, característica que influencia diretamente a composição dos custos operacionais das companhias aéreas.

Para o economista Matheus Torrente, colunista da CBN Amazônia, a localização geográfica do estado explica boa parte desse cenário.

"A principal razão de Rondônia figurar entre os maiores preços nacionais de passagens aéreas é a nossa distância geográfica. Nosso país é continental e os voos daqui percorrem distâncias muito maiores. Além disso, um dos maiores custos das companhias aéreas é o combustível, que representa quase 30% do custo do voo."

Segundo o economista, o combustível de aviação (QAV) corresponde a aproximadamente 30% do custo operacional de um voo. Somam-se a isso as longas distâncias, a baixa densidade populacional da região Norte e a limitada oferta de frequências aéreas.

"Como a gente não é tão populoso aqui no Norte, principalmente Rondônia e Acre, não existe uma disponibilidade tão grande de voos. Com poucos voos disponíveis, os aviões costumam sair cheios, mas isso também faz com que os preços aumentem", explica.

Embora a taxa de ocupação das aeronaves seja elevada, o reduzido número de operações impede ganhos de escala capazes de diminuir os custos, levando as empresas a praticarem tarifas mais altas para equilibrar suas despesas operacionais.

Yield cresce acima de 30% e confirma alta no custo das viagens

Outro indicador que chama atenção no estudo da Anac é o yield, índice que representa a receita média obtida pelas companhias por passageiro a cada quilômetro voado.

Em Rondônia, o rendimento médio atingiu R$ 0,446 por quilômetro, registrando crescimento de 30,8% em comparação com 2024.

Na prática, o aumento do yield confirma que o passageiro está pagando mais para percorrer praticamente as mesmas rotas, refletindo diretamente no orçamento de quem depende do transporte aéreo.

Passageiros enfrentam despesas que chegam a R$ 7 mil

O impacto das tarifas elevadas é sentido principalmente por quem precisa viajar com frequência.

O advogado e professor universitário Welison Nunes, que realiza viagens constantes para Brasília, São Paulo e, eventualmente, para o exterior, afirma que seus gastos com passagens variam entre R$ 3.500 e R$ 7.000, dependendo do destino e da antecedência da compra.

"Uma passagem de Porto Velho para Brasília, dependendo da época da compra, custa entre R$ 3.500 e R$ 3.800."

Segundo ele, o alto custo já provocou o cancelamento de diversas viagens.

"Já deixei de fazer várias viagens em função do valor. Você consegue comprar uma viagem de ida e volta para o exterior e não consegue comprar uma passagem de Porto Velho para Brasília ou para São Paulo pelo mesmo valor."

Como estratégia para reduzir os gastos, Welison afirma que procura adquirir os bilhetes com bastante antecedência, embora isso nem sempre seja suficiente para encontrar preços acessíveis.

Infraestrutura limita expansão da aviação regional

Além das questões geográficas, Matheus Torrente avalia que a infraestrutura aeroportuária também representa um obstáculo para o crescimento da aviação em Rondônia.

"Temos um aeroporto internacional, mas com poucos voos internacionais. Isso reduz o interesse das empresas em ampliar as operações. Além disso, é preciso ter equipes de solo, mecânicos, abastecimento e toda uma estrutura logística para atender as companhias."

Segundo o economista, a ausência de mão de obra especializada e de uma estrutura logística mais robusta reduz a atratividade do estado para novas operações aéreas.

Na avaliação dele, medidas como incentivos fiscais sobre o combustível de aviação, investimentos em aeroportos, fortalecimento da aviação regional e ampliação do transporte de cargas poderiam estimular a entrada de novas companhias, aumentar a concorrência e contribuir para a redução das tarifas.

Operações permanecem concentradas em Porto Velho

Apesar do elevado custo das passagens, Rondônia manteve em 2025 operações em quatro aeroportos, o mesmo número registrado no ano anterior.

Ao longo do ano foram contabilizadas 2.605 decolagens, distribuídas da seguinte forma:

  • Porto Velho: 2.236 decolagens;
  • Ji-Paraná: 166;
  • Vilhena: 102;
  • Cacoal: 101.

No transporte de passageiros, o estado registrou 336.750 passageiros pagos no mercado doméstico.

A distribuição ocorreu da seguinte maneira:

  • Porto Velho: 302.246 passageiros;
  • Ji-Paraná: 11.572;
  • Cacoal: 11.519;
  • Vilhena: 11.413.

Já o transporte de cargas apresentou retração. A quantidade de carga paga e correio embarcados caiu de 803 toneladas em 2024 para 758 toneladas em 2025, sinalizando desaceleração na movimentação logística aérea.

Companhias atribuem preços à dinâmica do mercado

Questionadas sobre os elevados valores das passagens, as companhias aéreas apresentaram explicações distintas.

Em nota, a Azul informou que os preços são definidos por um sistema de tarifas dinâmicas e variam conforme fatores como trecho, época do ano, antecedência da compra, disponibilidade de assentos, oferta e demanda.

A empresa acrescentou que fatores externos — entre eles a cotação do dólar, o preço do combustível de aviação e conflitos internacionais — também influenciam diretamente a formação das tarifas.

Como orientação aos consumidores, a companhia recomenda comprar passagens com antecedência, manter flexibilidade de datas e horários e, sempre que possível, considerar diferentes aeroportos de embarque e desembarque. A Azul ressalta ainda que períodos de maior demanda, como férias escolares e feriados, costumam apresentar preços mais elevados.

As companhias Gol e Latam não responderam aos questionamentos até o fechamento desta edição.

Conectividade ainda é um desafio para o desenvolvimento

Os dados consolidados pela Anac evidenciam que o alto custo das passagens aéreas em Rondônia está associado a fatores estruturais que vão além da simples variação de preços praticada pelas companhias.

Longas distâncias, baixa densidade populacional, custos operacionais elevados, infraestrutura limitada, pouca concorrência e reduzida oferta de voos formam um conjunto de desafios que mantém o estado entre os mercados mais caros da aviação brasileira.

Nesse contexto, especialistas defendem que políticas públicas voltadas ao fortalecimento da aviação regional, incentivos ao setor e investimentos em infraestrutura aeroportuária podem ampliar a conectividade da região Norte, estimular novas operações e criar condições para um ambiente mais competitivo, com potencial para reduzir os custos suportados pelos passageiros.

Por Zecca Paim- Jornalista - DRT 1453/RO

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